Alunos do RUMO assistem à palestra exclusiva do Professor Pasquale
Por Hamilton Fernandes
A tradicional palestra do Professor Pasquale – exclusiva para os alunos do RUMO – aconteceu nessa quinta-feira, 10 de dezembro, no Instituto Cultural Israelita Brasileiro (ICIB), localizado no Bom Retiro, em São Paulo. O professor resolveu as questões de língua portuguesa da prova do nível médio do IFSP (Federal), aplicada no semestre passado.
“Existem muitas questões da prova da Federal que exigem atenção na leitura e questões que já estão praticamente respondidas – quando há uma dica na própria pergunta – mas, o maior problema é a ansiedade, a afobação do candidato ao fazer a prova”, alertou logo de início o professor.
Como exemplo, Pasquale citou uma questão de matemática da Fuvest que caiu anos atrás e induziu ao erro boa parte dos candidatos. “A questão perguntava quanto era 10% ao quadrado. O que muita gente respondeu? 100%. Errado! O quadrado de 10% é o quadrado de dez sobre cem, você corta os zeros, eleva ao quadrado e chega a um sobre cem, ou seja, 1%”.
As 12 questões resolvidas pelo professor baseavam-se na canção “Êh, São Paulo” de Alvarenga e Ranchinho, dupla sertaneja da década de 1930 que ficou conhecida por satirizar os políticos da época; em poemas de Oswald e Mário de Andrade, e em um texto histórico sobre os índios que viviam em São Paulo na época da fundação da cidade. Ortografia, concordância verbal, figuras de linguagem e interpretação de texto foram os tópicos mais abordados.
Após a palestra, Pasquale resolveu algumas dúvidas e distribuiu autógrafos aos alunos do RUMO, que fazem a prova do IFSP neste domingo.
Confiança na hora da prova
Lucas Alves, aluno do 9º ano do RUMO, vai fazer a prova da Federal (IFSP) no domingo e aprovou a palestra. “A palestra é muito boa. O Pasquale passou muitas dicas para resolver as questões de português. Estou mais confiante para fazer a prova”, diz o estudante que também já fez o vestibulinho das Etecs e acertou 40 das 50 questões. Ele concorre a uma vaga do Ensino Médio na Etec Bom Retiro (ETESP) e na Federal.
Leia abaixo uma entrevista com o professor concedida ao RUMO no começo deste ano:
RUMO - Como você avaliaria as questões de português dos atuais vestibulares e vestibulinhos? Pasquale - Há provas que avaliam efetivamente a competência operacional do aluno para lidar com a língua. Os vestibulares mais importantes parecem que chegaram a um modelo estável, que se tornou mais ou menos um padrão. Eu vejo que a escola Federal [IFSP] ainda procura um caminho para sua prova. Acho até que eles poderiam fazer uma prova um pouco mais arejada, evitando certas perguntas meio pontuais... Mas a prova não é ruim – é eficiente.
R - Quando você começou com as palestras para os alunos do RUMO? P - Eu trabalho com o professor Laércio [diretor geral do RUMO] há muito tempo. Nós já lecionamos na mesma instituição, somos velhos companheiros. E sempre mantemos nossa amizade, o contato; acompanho o trabalho dele desde a fundação do RUMO. No primeiro ano, eu compareci e fiz meu trabalho. A coisa funciona, é legal, ele é muito dedicado, muito esforçado em tudo que faz. Todos os anos, desde a inauguração do RUMO, apresento minhas palestras para os alunos.
R - Quais são os tópicos mais problemáticos para os alunos?
P - As questões de interpretação de texto. Aquelas que avaliam efetivamente a mensagem contida no texto. Às vezes, o aluno tem dificuldade em não entender a estrutura empregada, por não ter familiaridade com a variedade de termos empregada ali, ou até por não ter domínio do assunto. O que acaba atrapalhando, confundindo a visão do aluno em relação ao texto e ele enxerga coisas que não existem.
R - Como o aluno pode adquirir a habilidade de interpretar textos? P - É preciso ler constantemente e fazer algum tipo de auto-avaliação. A pessoa tem que perguntar a si se compreendeu aquilo, se é preciso reler, se é preciso voltar a determinadas partes do texto. O vocabulário é muito importante... Muita gente não tem vocabulário. O sujeito lê o texto, aparece uma palavra que ele não conhece e não vai investigar – isso é trágico.
R - Como a literatura pode ajudar o aluno a fazer uma boa prova? P - A leitura abre portas, abre mundo e horizontes; a leitura exercita a criatividade, a compreensão, a fidelidade ao texto. Mas uma coisa que deve ser dita aqui: o raciocínio – o aluno precisa aprender a pensar. Isso é muito importante para aprender qualquer coisa, qualquer matéria – exercitar o pensamento.
R - Funciona dar José de Alencar, Machado de Assis para um menino de 14, 15 anos? P - Não, não funciona. O texto tem que ser adequado à idade, à realidade da pessoa, à maturidade, ao estágio linguístico em que ela se encontra.
R - Qual autor ou tipo de leitura você recomendaria para essa faixa etária? P - Eu não vou dizer um nome, mas há muitos escritores que atuam nessa faixa, escritores voltados para esse público que poderiam ser usados como fontes. E em termos de prova, os alunos têm condições de entender textos jornalísticos, didáticos e de atualidades.
R - Você acha que a linguagem usada na internet compromete a capacidade de escrever do adolescente? P - Compromete se ele só tiver domínio dessa variedade de língua. Se ele for uma pessoa que sabe usar a língua de acordo com a situação, não há problema algum. Mas se ele só domina esse jeito de se expressar, aí realmente surgem complicações.
R - Você acha que a reforma ortográfica realmente unificará a grafia do português? P - A idéia em si é interessante – criar uma unidade da grafia entre os países que têm o português como língua oficial. Mas é uma idéia quase irrealizável porque sempre haverá diferenças e se a idéia é fazer com que o sujeito que está no exterior, sei lá, um sueco que queira estudar o português, fazer com que esse camarada não tenha dúvida na hora de grafar – se ele opta pela grafia brasileira ou pela grafia portuguesa –, as dúvidas vão existir porque vão continuar existindo palavras de dupla grafia. E qual é o custo dessa unificação? Um custo imenso. É preciso reeditar tudo, reaprender, é uma coisa complicada, o custo supera de longe o benefício.
R - O linguista Marcos Bagno afirmou em artigo na revista Caros Amigos que muitos gramáticos usam um “modelo estúpido e jurássico de ‘português correto’”, que remete a escritores do século 19, como o Eça de Queirós? A norma culta da língua pode ser uma camisa de força? P - Pode ser, se for mal trabalhada. Eu não sei de onde o pessoal tira essa ideia de que os gramáticos querem que as pessoas escrevam como se escrevia no século 19. Isso não existe. Isso é má vontade para com o trabalho de alguns gramáticos, de alguns estudiosos da língua. Eu nem separo gramático de linguistas, para mim são todos estudiosos da língua.
R - O que você acha de escritores como Marcelo Rubens Paiva que intencionalmente usam a ênclise em casos que a norma culta considera errado, por exemplo, “Me levantei”, “Me surpreendi”... P - Sim, mas ele faz literatura, texto técnico é outra coisa. São linguagens diferentes. Ele tem mais é que escrever do jeito que lhe parece viável, similar ao que se faz na língua efetiva do Brasil. São mundos distintos. Uma coisa é escrever texto técnico, outra é escrever texto literário.